sábado, 27 de fevereiro de 2010

Uma paixão chamada poker


Quando se pensa em um jogo de poker, que imagem vem à sua mente? Um monte de malandros, bebendo whisky, fumando charuto, prontos para sacarem uma arma do bolso se o resultado final da mão for desfavorável? Ou então, alguns cowboys que tiram dinheiro vivo do bolso para colocar na mesa de apostas e, caso seja necessário, põem até a chave do carro e do apartamento?

Esqueça tudo isso. Há 50 anos, nos bares norte-americanos, esses panoramas até eram bons retrato da realidade. No século XXI, a descrição acima vai de encontro aos princípios de um torneio ou um cash game do poker.

Sou suspeitíssimo para emitir opinião, já que desde dezembro passado, dedico algumas horas de minha semana ao estudo e à prática do esporte, unicamente, até o momento, em salas online. Por outro lado, posso emitir um depoimento do que o poker significa para mim, e sei que muitos comungam dessa opinião.

Mais do que um jogo, ou até mesmo, um esporte, o poker é uma mega-ferramenta de auto-conhecimento e de estímulo ao raciocínio. Pra você ser um vencedor, precisa que dois fatores estejam caminhando juntos: sorte e habilidade.

Existe uma corrente amplamente defendida pelos profissionais brasileiros de que o poker não é um jogo de sorte, mas sim de habilidade. Oras, como poderia não ser um jogo em que a sorte é fundamental? Na modalidade mais conhecida, o Texas Hold'em, cada jogador recebe duas cartas, de 52 possíveis. Na mesa, aparecem mais três cartas, depois mais uma, e outra por fim.

Como prever cada uma delas? É claro que, de acordo com o que você tem na mão, combinado com a mesa, você vai ter ou não o melhor jogo!

Acontece que tudo isso pode ser previsto matematicamente. O que realmente diferencia os jogadores amadores dos grandes competidores é a imersão no pensamento dos adversários, de modo a analisar, de acordo com a rotina de apostas, a posição da jogada, e até os gestuais que ele faz, a força do jogo dele.

Quando se consegue ler o padrão de apostas dos oponentes, torna-se possível a previsão do jogo que eles possuem. E, finalmente, "dar o troco" (termo técnico: reraise) quando ele faz uma aposta tendo um blefe na mão.

Desnecessário dizer que os pequenos detalhes tornam o jogo fascinante. Descrever as regras do poker é fácil, o difícil é explicar as milhões de variantes que uma rodada traz.

Quem quiser conhecer mais pode encontrar muito material na internet. O site mais bacana para os brasileiros é o MaisEV, com informações vastas.

Bem-vindos ao jogo, kids.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Religião e Esporte, mecanismos de fuga da realidade


Este blog mal começou a já ficou sem postagens por longo tempo. Este texto, por exemplo, já deveria ter sido redigido e publicado há um mês, data em que pude tomar as ideias contidas nele como verdades - pra mim, pelo menos.

Pensei muitas vezes antes de publicar algo deste tipo, por várias razões. A primeira é de que este é um espaço eminentemente esportivo, nunca achei que iria mesclar a temática com outros assuntos. Mas fez-se necessário, uma vez que é algo que me incomoda profundamente. Provavelmente não voltarei a tocar no assunto, por ser polêmico, mas vou registrá-lo.

É flagrante o poder que o esporte e a religião, essencialmente a cristã protestante, exercem na vida das pessoas. Uma influência basicamente sadia, mas que pode muitas vezes ter um poder alucinógeno em quem a recebe.

Presenciei uma cerimônia de casamento numa Igreja Presbiteriana. O espaço difere bastante das tradicionais igrejas católicas. Saem os vitrais, imagens sacras estatizadas, pinturas e padre, entram declarações floridas, muita cantoria e vários pastores.

A cerimônia, a começar pela entrada dos noivos, juntos, é marcante. Mais da metade dela é basicamente musical, ao contrário do pragmatismo do casamento católico, com a entrada dos padrinhos, noivo, música da noiva, noiva.

Mas o que mais chama a atenção é a condução feita, na qual não há a preocupação com o entendimento por parte de pessoas de outras religiões. O pastor-condutor lança o nome do livro, do capítulo, do versículo, e, repentinamente, todos sacam a bíblia dos bolsos e bolsas, leem com afinco e emitem, ao mesmo tempo, expressões de bons desejos ao novo casal.

Passada uma hora, finda a cerimônia, todos saem para os cumprimentos e, fileira por fileira, uma a uma, as pessoas põem fim a uma sessão de bençãos e fervorosas crenças. Perdem o aspecto sôfrego-emocionado-glorificado, próprio de quem acabou de receber (ou conceder) um milagre e voltam a ser homens e mulheres de comportamento usual.

Oras, o que pode ter sido esse período senão uma fuga completa da realidade?

É natural, para os noivos, o pensamento de que este foi um momento único e marcante em suas vidas, no qual todas as emoções saltaram à flor da pele. Para os familiares também, ainda que em menor grau. E para os amigos e colegas, ainda menor.

Mas enquanto estavam ali, se dedicaram plenamente a um determinado processo - no caso, o casamento - e afastaram todo e qualquer pensamento cotidiano de suas vidas. Uma verdadeira catarse, uma explosão de sentimentos.

Exatamente igual àquela que surge depois de um gol decisivo, assegurando um títlo ou uma vitória sobre o maior rival, por exemplo.

Quando se vai a um estádio de futebol, assim como na Igreja, o ser humano esquece, por um período bem definido de tempo (90 minutos), todos os problemas. O que importam as contas, as enfermidades, as discussões? O que importa é a "vitória do meu time".

Durante o culto, os religiosos agem da mesma maneira: estão preocupados apenas em louvar, louvar e louvar, ainda que seja por algo que tenha acontecido com eles próprios. Quando a cerimônia termina, os pensamentos em torno da religião até existem, mas não são manifestos - apenas em ocasiões especiais, quando a pessoa quer mostrar/provar a outra sua temência a Deus.

Não sou ninguém para aprovar ou reprovar qualquer coisa, muito menos quando futebol e religião estão envolvidos. Inclusive, considero benéficos os efeitos desses momentos de catarse na maior parte das pessoas. Mas é inegável que, também na maior parte dos casos, esses se tornam dois fatores de obnubilção da realidade.

Em outra palavra, fuga.

Em outras, mais fortes, método de se livrar de responsabilidades impostas pela vida, nem que de maneira passageira.

O atroz ápice dessa cegueira coletiva se dá quando chegamos ao fundamentalismo religioso, mais comum no cristianismo e no islamismo, e à selvageria entre torcedores, motivada por algo que deve ser parecido com a demência.

O que quero dizer com tudo isso é: tentar mascarar a realidade por meio de instrumentos, sejam eles quais forem, trarão mais prejuízo do que lucro, ao menos a longo prazo.

Enxergo a religião como a explicação para aquilo que não pode ser tangido pela lógica, tenho minhas crenças e sei do resguardo que é você ter esse porto seguro. E vejo o esporte como um apêndice importante na vida das pessoas, para relaxar, divertir, entreter, mas jamais cegá-las.
Assim sendo, continuemos com nossas crenças, nossas torcidas, sem nunca, no entanto, esquecer que a vida é muito mais do que religião e futebol.